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Semente de Democracia - A Ideologia do Mérito

         A ideologia é um sistema de idéias, peculiar a determinado grupo e condicionado, em última análise, pelos interesses desse grupo. A função da ideologia consiste na conquista ou conservação de um determinado status social do grupo e de seus membros. Doutrinas políticas, religiosas, econômicas e filosóficas desempenham, geralmente, funções de ideologia. Raramente, porém, essa função chega à luz da consciência dos que professam tal ideologia. Esta será tanto mais forte quanto maior for a convicção e o apego emocional revelados por seus defensores. A eficiência   de   uma   ideologia,   no que   diz respeito à

 

conservação do status de determinado grupo, depende também de sua aprovação por outros grupos integrados na mesma estrutura social. Num regime de castas, por exemplo, a ideologia básica é aceita também pelos sem casta, que se sujeitam às condições sociais que as castas lhes impõem.

          Em sentido mais geral, a cultura de todos os sistemas sociais inclui uma ideologia que serve para explicar e justificar sua existência como estilo de vida, seja uma ideologia com raízes na família, que define a natureza e a finalidade da vida familiar ou uma ideologia religiosa que serve de base e prega um sistema de vida em relação a forças sagradas.

          A ideologia pode servir também como base para movimentos em prol de mudança social. Do movimento verde de preservação ambiental ao feminismo radical, movimentos sociais dependem de conjuntos de idéias que explicam e justificam seus objetivos e seus métodos.

          A ideologia, segundo Ferrater Mora, foi uma disciplina filosófica, cujo objeto era a análise das idéias e sensações. Os ideólogos, que escreveram no início do século XIX, interessaram-se grandemente pela análise das faculdades e dos diversos tipos de “idéias” produzidas por estas faculdades. Estas “idéias” não eram nem formas (lógicas ou metafísicas) nem fatos estritamente psicológicos, nem categorias (gnoseológicas), embora participassem de algum modo de cada uma destas noções. A ideologia, neste momento histórico, está intimamente ligada à gramática geral, que se ocupa do conhecimento e à lógica que trata da aplicação do pensamento à realidade.

          Neste sentido, convém salientar que Maquiavel já havia deixado muito clara a possibilidade de uma distinção entre a realidade, especialmente a realidade política e as idéias políticas. Assim, na famosa inversão da doutrina de Hegel operada por Marx, as ideologias formam-se como mascaramento da realidade econômica. A classe social dominante oculta os seus verdadeiros propósitos por meio de uma ideologia. No âmbito da dialética, a ideologia, ao mesmo tempo em que oculta e mascara a realidade, pode ser o desvelamento desta mesma realidade e servir como instrumento de luta.

          Allan Johnson destaca, ainda, a dimensão sociológica do termo ideologia, quando informa que a ideologia é um conjunto de crenças, valores e atitudes culturais que servem de base e, por isso, justificam e, até certo ponto, tornam legítimo o status quo ou os movimentos para mudá-los. Do ponto de vista marxista, a maioria das ideologias reflete os interesses de grupos dominantes, como maneira de perpetuar sua dominação e seus privilégios. Numa visão mais ampla, a cultura de todos os sistemas sociais inclui uma ideologia que serve para explicar e justificar sua existência como estilo de vida. A ideologia, como vimos, pode servir também como base para movimentos em prol da mudança social, tendo assim também uma dimensão política, de doutrina, programa ou método de trabalho.

          Nesse roteiro, pode-se falar numa ideologia dominante que ensina que classes subordinadas e grupos minoritários tendem a aceitar sua condição desprivilegiada porque a cultura em que vivem é controlada na maior parte por grupos dominantes. Neste sentido, a cultura é importante porque contém as idéias básicas a que se recorre para construção do senso do que é real, relevando e esperado. As culturas incluem as crenças em que o trabalho árduo e o talento são os elementos determinantes mais importantes do sucesso financeiro. A tese da ideologia dominante diz ainda que tais crenças são amplamente promovidas por instituições educacionais e pela mídia, todas controladas pela classe dominante.

              Esta tese dá ensejo a muitas controvérsias. Por isso, fala-se também na utopia.

        Numa conceituação mais ampla, utopia é um termo usado para denominar construções imaginárias de sociedades perfeitas, de acordo com os princípios filosóficos de seus idealizadores. Num sentido mais limitado, utopia significa toda doutrina social que aspira a uma transformação da ordem social existente, de acordo com os interesses de determinados grupos ou classes sociais.

          Assim, utopia é a visão de uma comunidade ou sociedade idealizadas, tipicamente usada para criticar condições sociais vigentes e exercer pressão em prol de mudanças. Talvez os mais famosos exemplos de utopias sejam os encontrados em A República, de Platão, em Utopia, de Tomás Morus, na Cidade de Deus de Santo Agostinho ou na Cidade do Sol de Tomás Campanella.

          Karl Mannheim na sua obra clássica, Ideologia e Utopia construiu uma forte teoria sociológica na modelação da sociologia do conhecimento, principalmente sob a forma de ideologia. Seu argumento básico era que o conhecimento produzido em uma sociedade é moldado pela maneira como a própria sociedade é organizada, por sua cultura e sua estrutura. Por extensão, o que o indivíduo sabe depende de sua localização na estrutura da sociedade, incluindo, mas não sendo limitado, por fatores como a classe social.

          Como se vê, a discussão sobre a ideologia e a utopia tem raízes bem profundas no pensamento ocidental, desde a patrística, fortalecendo-se no renascimento e permeando, através do iluminismo, a construção do mundo moderno. Como se recorda, o renascimento encerra os germes de todo o pensamento moderno, através da renovação das antigas escolas filosóficas da antigüidade clássica.

          Entre os vultos mais atraentes da renovação filosófica do renascimento emerge, com luminoso destaque, a figura de Tomás Campanella, um dominicano que passou 27 anos encarcerado por força de suas idéias provocantes. Campanella assinala historicamente a passagem do renascimento para a idade moderna, desenvolvendo uma reflexão bastante aprofundada sobre o conhecimento. Mas não se limita à discussão gnoseológica. Tem uma poderosa expressão prática, política e pedagógica na sua famosa obra Cidade do Sol, em que apresenta a sua utopia teocrático-comunista. Imagina uma república ideal, professando uma religião natural, governada por leis universais, em que, à maneira de Platão, o sábio é, ao mesmo tempo, monarca e sacerdote.

          Campanella viveu longos anos na prisão, afastado da vida real. Suas obras, escritas no cárcere, manifestam uma mentalidade fantástica, idealista, utópica, em que falta a experiência de uma vida concreta. Contudo, Leonel Franca entende que “tumultuária e aventurosa, a obra de Campanella encerra não poucas idéias aproveitáveis”. Na Cidade do Sol, Campanella elabora uma utopia política e pedagógica, sustentando um estado teocrático-comunista e uma educação realista-ativista.

          Em reação aos devaneios utópicos de Campanella, emerge a grande conquista e o grande valor do pensamento renascentista, a história humana e a ciência natural. Surge a ciência política e a técnica científica, no desdobramento dos escritos de Nicolau Maquiavel e Galileu Galilei.

        Segundo Galileu, a ciência deve ter três qualidades: 1. ser indutiva, pois deve fundamentar-se sobre a experiência, para conhecer e dominar a própria experiência; 2. ser fenomenal, pois deve procurar as leis dos fenômenos e não as leis das essências das coisas e 3. ser matemática, pois as leis que regem os fenômenos são físico-matemáticas. Além disso, o procedimento metódico particular para construir a ciência e descobrir as leis dos fenômenos consta de três momentos: observação, hipótese e experimentação. Galileu distingue as propriedades das coisas em objetivas (primárias, correspondentes diretamente à realidade) e subjetivas, secundárias, transformações das propriedades objetivas por obra dos nossos sentidos.

          Foi o conflito entre a nova ciência natural, empírica e matemática e a metafísica tradicional, aristotélico-tomista, que gerou, no renascimento, o famoso processo contra Galileu. Contudo, prevaleceu o espírito científico, baseado na experimentação, graças à aceitação que a metafísica tradicional da nova ciência, renunciando à velha ciência e a nova ciência acatando a nova filosofia.

          Estes tortuosos caminhos percorridos, com argúcia e obstinação, pela inquieta mente humana de figuras proeminentes como Platão, Agostinho, Tomás Morus, Tomás Campanella, Nicolau Maquiavel, Marx, Mannheim, Sorokin, Althusser e tantos outros, ainda não levaram ao lugar que plenifica o coração humano e aquieta os anseios em busca da perfeição.

          A busca da compreensão da realidade, a abordagem do mundo objetivo e a necessidade de conhecer os mecanismos subjetivos inibidores ou limitantes do acesso à objetividade dos fatos são um dado permanente de investigação filosófica. Também, a análise e interpretação do alcance de crenças e valores, fundamentam a análise sociológica de compreensão e explicação da realidade do mundo social e da história. Além disso, a inquietação e o inconformismo diante das situações de desequilíbrio e desigualdade e até flagrantes injustiças sociais, provocam indignação e contestação. A política, como ciência e como atividade, apresenta uma terceira dimensão da ideologia como programa, doutrina e metodologia de ação transformadora.

          A tentativa de Inairo ao lançar “Semente de Democracia – a ideologia do mérito –” representa mais um esforço nesta caminhada inquietante e instigadora. Trata-se de uma denúncia contra o status quo. Não mais suporta a pseudodemocracia representativa e não se conforma com os mecanismos inadequados para uma democracia direta num mundo globalizado.

          Refletir é preciso. Como se vê, ainda há espaço para filósofos, pensadores e poetas. Os filósofos buscam a sabedoria, que não é só erudição, mas coerência e ação. Os pensadores buscam as bases universais para compreender e transformar o nosso pequeno mundo, globalizado e dilacerado. Os poetas procuram engendrar a novidade na perenidade dos sonhos com o novo, com um mundo eternamente novo. A permanente novidade é sonhar com um futuro novo, que não seja a simples correção dos erros do passado e superação das angústias de um presente que inquieta e desafia.

Plácido Cidade Nuvens
Procurando novo alento na mensagem de Inairo,
nesta Páscoa de 2002, na cidade do Crato.


Plácido Cidade Nuvens é Doutor em Ciências Sociais pela Universidade São Tomás de Aquino – Roma, Mestre em Filosofia pela Universidade Gregoriana – Roma, Professor de Sociologia no Curso de Direito da Universidade Regional do Cariri – URCA, onde, nos últimos cinco anos, vem exercendo as funções de Vice-Reitor.

 

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