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conservação do status de determinado grupo,
depende também de sua aprovação por outros
grupos integrados na mesma estrutura social. Num regime de
castas, por exemplo, a ideologia básica é aceita
também pelos sem casta, que se sujeitam às condições
sociais que as castas lhes impõem.
Em sentido mais geral, a cultura de todos os sistemas sociais
inclui uma ideologia que serve para explicar e justificar
sua existência como estilo de vida, seja uma ideologia
com raízes na família, que define a natureza
e a finalidade da vida familiar ou uma ideologia religiosa
que serve de base e prega um sistema de vida em relação
a forças sagradas.
A ideologia pode servir também como base para movimentos
em prol de mudança social. Do movimento verde de preservação
ambiental ao feminismo radical, movimentos sociais dependem
de conjuntos de idéias que explicam e justificam seus
objetivos e seus métodos.
A ideologia, segundo Ferrater Mora, foi uma disciplina filosófica,
cujo objeto era a análise das idéias e sensações.
Os ideólogos, que escreveram no início do século
XIX, interessaram-se grandemente pela análise das faculdades
e dos diversos tipos de idéias produzidas
por estas faculdades. Estas idéias não
eram nem formas (lógicas ou metafísicas) nem
fatos estritamente psicológicos, nem categorias (gnoseológicas),
embora participassem de algum modo de cada uma destas noções.
A ideologia, neste momento histórico, está intimamente
ligada à gramática geral, que se ocupa do conhecimento
e à lógica que trata da aplicação
do pensamento à realidade.
Neste sentido, convém salientar que Maquiavel já
havia deixado muito clara a possibilidade de uma distinção
entre a realidade, especialmente a realidade política
e as idéias políticas. Assim, na famosa inversão
da doutrina de Hegel operada por Marx, as ideologias formam-se
como mascaramento da realidade econômica. A classe social
dominante oculta os seus verdadeiros propósitos por
meio de uma ideologia. No âmbito da dialética,
a ideologia, ao mesmo tempo em que oculta e mascara a realidade,
pode ser o desvelamento desta mesma realidade e servir como
instrumento de luta.
Allan Johnson destaca, ainda, a dimensão sociológica
do termo ideologia, quando informa que a ideologia é
um conjunto de crenças, valores e atitudes culturais
que servem de base e, por isso, justificam e, até certo
ponto, tornam legítimo o status quo ou os movimentos
para mudá-los. Do ponto de vista marxista, a maioria
das ideologias reflete os interesses de grupos dominantes,
como maneira de perpetuar sua dominação e seus
privilégios. Numa visão mais ampla, a cultura
de todos os sistemas sociais inclui uma ideologia que serve
para explicar e justificar sua existência como estilo
de vida. A ideologia, como vimos, pode servir também
como base para movimentos em prol da mudança social,
tendo assim também uma dimensão política,
de doutrina, programa ou método de trabalho.
Nesse roteiro, pode-se falar numa ideologia dominante que
ensina que classes subordinadas e grupos minoritários
tendem a aceitar sua condição desprivilegiada
porque a cultura em que vivem é controlada na maior
parte por grupos dominantes. Neste sentido, a cultura é
importante porque contém as idéias básicas
a que se recorre para construção do senso do
que é real, relevando e esperado. As culturas incluem
as crenças em que o trabalho árduo e o talento
são os elementos determinantes mais importantes do
sucesso financeiro. A tese da ideologia dominante diz ainda
que tais crenças são amplamente promovidas por
instituições educacionais e pela mídia,
todas controladas pela classe dominante.
Esta tese dá ensejo a muitas controvérsias.
Por isso, fala-se também na utopia.
Numa conceituação mais ampla, utopia é
um termo usado para denominar construções imaginárias
de sociedades perfeitas, de acordo com os princípios
filosóficos de seus idealizadores. Num sentido mais
limitado, utopia significa toda doutrina social que aspira
a uma transformação da ordem social existente,
de acordo com os interesses de determinados grupos ou classes
sociais.
Assim, utopia é
a visão de uma comunidade ou sociedade idealizadas,
tipicamente usada para criticar condições sociais
vigentes e exercer pressão em prol de mudanças.
Talvez os mais famosos exemplos de utopias sejam os encontrados
em A República, de Platão, em Utopia,
de Tomás Morus, na Cidade de Deus de Santo Agostinho
ou na Cidade do Sol de Tomás Campanella.
Karl Mannheim na sua obra
clássica, Ideologia e Utopia construiu uma forte
teoria sociológica na modelação da sociologia
do conhecimento, principalmente sob a forma de ideologia.
Seu argumento básico era que o conhecimento produzido
em uma sociedade é moldado pela maneira como a própria
sociedade é organizada, por sua cultura e sua estrutura.
Por extensão, o que o indivíduo sabe depende
de sua localização na estrutura da sociedade,
incluindo, mas não sendo limitado, por fatores como
a classe social.
Como se vê, a discussão sobre a ideologia e
a utopia tem raízes bem profundas no pensamento ocidental,
desde a patrística, fortalecendo-se no renascimento
e permeando, através do iluminismo, a construção
do mundo moderno. Como se recorda, o renascimento encerra
os germes de todo o pensamento moderno, através da
renovação das antigas escolas filosóficas
da antigüidade clássica.
Entre os vultos mais atraentes
da renovação filosófica do renascimento
emerge, com luminoso destaque, a figura de Tomás Campanella,
um dominicano que passou 27 anos encarcerado por força
de suas idéias provocantes. Campanella assinala historicamente
a passagem do renascimento para a idade moderna, desenvolvendo
uma reflexão bastante aprofundada sobre o conhecimento.
Mas não se limita à discussão gnoseológica.
Tem uma poderosa expressão prática, política
e pedagógica na sua famosa obra Cidade do Sol,
em que apresenta a sua utopia teocrático-comunista.
Imagina uma república ideal, professando uma religião
natural, governada por leis universais, em que, à maneira
de Platão, o sábio é, ao mesmo tempo,
monarca e sacerdote.
Campanella viveu longos
anos na prisão, afastado da vida real. Suas obras,
escritas no cárcere, manifestam uma mentalidade fantástica,
idealista, utópica, em que falta a experiência
de uma vida concreta. Contudo, Leonel Franca entende que tumultuária
e aventurosa, a obra de Campanella encerra não poucas
idéias aproveitáveis. Na Cidade do
Sol, Campanella elabora uma utopia política e pedagógica,
sustentando um estado teocrático-comunista e uma educação
realista-ativista.
Em reação aos devaneios utópicos de
Campanella, emerge a grande conquista e o grande valor do
pensamento renascentista, a história humana e a ciência
natural. Surge a ciência política e a técnica
científica, no desdobramento dos escritos de Nicolau
Maquiavel e Galileu Galilei.
Segundo Galileu, a ciência
deve ter três qualidades: 1. ser indutiva, pois
deve fundamentar-se sobre a experiência, para conhecer
e dominar a própria experiência; 2. ser fenomenal,
pois deve procurar as leis dos fenômenos e não
as leis das essências das coisas e 3. ser matemática,
pois as leis que regem os fenômenos são físico-matemáticas.
Além disso, o procedimento metódico particular
para construir a ciência e descobrir as leis dos fenômenos
consta de três momentos: observação, hipótese
e experimentação. Galileu distingue as propriedades
das coisas em objetivas (primárias, correspondentes
diretamente à realidade) e subjetivas, secundárias,
transformações das propriedades objetivas por
obra dos nossos sentidos.
Foi o conflito entre a nova ciência natural, empírica
e matemática e a metafísica tradicional, aristotélico-tomista,
que gerou, no renascimento, o famoso processo contra Galileu.
Contudo, prevaleceu o espírito científico, baseado
na experimentação, graças à aceitação
que a metafísica tradicional da nova ciência,
renunciando à velha ciência e a nova ciência
acatando a nova filosofia.
Estes tortuosos caminhos percorridos, com argúcia
e obstinação, pela inquieta mente humana de
figuras proeminentes como Platão, Agostinho, Tomás
Morus, Tomás Campanella, Nicolau Maquiavel, Marx, Mannheim,
Sorokin, Althusser e tantos outros, ainda não levaram
ao lugar que plenifica o coração humano e aquieta
os anseios em busca da perfeição.
A busca da compreensão da realidade, a abordagem do
mundo objetivo e a necessidade de conhecer os mecanismos subjetivos
inibidores ou limitantes do acesso à objetividade dos
fatos são um dado permanente de investigação
filosófica. Também, a análise e interpretação
do alcance de crenças e valores, fundamentam a análise
sociológica de compreensão e explicação
da realidade do mundo social e da história. Além
disso, a inquietação e o inconformismo diante
das situações de desequilíbrio e desigualdade
e até flagrantes injustiças sociais, provocam
indignação e contestação. A política,
como ciência e como atividade, apresenta uma terceira
dimensão da ideologia como programa, doutrina e metodologia
de ação transformadora.
A tentativa de Inairo ao lançar Semente de Democracia
a ideologia do mérito representa
mais um esforço nesta caminhada inquietante e instigadora.
Trata-se de uma denúncia contra o status quo. Não
mais suporta a pseudodemocracia representativa e não
se conforma com os mecanismos inadequados para uma democracia
direta num mundo globalizado.
Refletir é preciso. Como se vê, ainda há
espaço para filósofos, pensadores e poetas.
Os filósofos buscam a sabedoria, que não é
só erudição, mas coerência e ação.
Os pensadores buscam as bases universais para compreender
e transformar o nosso pequeno mundo, globalizado e dilacerado.
Os poetas procuram engendrar a novidade na perenidade dos
sonhos com o novo, com um mundo eternamente novo. A permanente
novidade é sonhar com um futuro novo, que não
seja a simples correção dos erros do passado
e superação das angústias de um presente
que inquieta e desafia.
Plácido Cidade Nuvens
Procurando novo alento na mensagem de Inairo,
nesta Páscoa de 2002, na cidade do Crato.
Plácido Cidade Nuvens é Doutor
em Ciências Sociais pela Universidade São Tomás
de Aquino Roma, Mestre em Filosofia pela Universidade
Gregoriana Roma, Professor de Sociologia no Curso de
Direito da Universidade Regional do Cariri URCA, onde,
nos últimos cinco anos, vem exercendo as funções
de Vice-Reitor.
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