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          Sou levada, talvez por força do ofício, a comparar a história da humanidade a um texto, mas um texto não de um único autor, um pouco como na literatura oral, um texto com muitas frases. À última delas ainda não foi colocado o ponto final. Numa frase é assim: sua significação só é obtida depois que é dita sua última palavra. O ponto final produz um efeito retroativo que nos leva a compreender a primeira palavra, a frase inteira. Só é possível compreender melhor fatos acontecidos há muito tempo, quando já se tem uma frase com ponto final. É assim que se pode ver como a Revolução Francesa passou pelo menos duzentos anos sendo preparada. A partir desse ponto se apreende melhor o que foram os burgos e as novas relações que começavam a se constituir.

 

 

          Na produção da frase está implícito um tempo de espera, de expectativa, podendo ocorrer, no entanto, que ela chegue ao fim sem cumprir a promessa da intenção inicial, ou que mude de rumo. É preciso esperar a sucessão das palavras/fatos, fazer um ponto/corte para obter a retroação, o recuo.

          Não é fácil falar do que está próximo, mas é importante que apareçam os que se arriscam a fazê-lo, sobretudo se conseguem deixar claro o ponto de onde observam a paisagem, pois a ideologia produz uma espécie de cegueira que leva a tomar como natural o que é efeito de linguagem, o que é efeito das relações. Foi a linguagem que arrancou o homem da natureza, ela nos desnaturalizou para sempre. E, assim, não tendo a garantia da natureza, só nos resta criar, inventar.

          Como li Semente de Democracia, de Inairo Gomes? Primeiro, como um desabafo de um homem generoso e impaciente com a lerdeza das instituições para corrigir a distribuição injusta das riquezas. Por que o autor teria preferido o tom da queixa e do desabafo à análise? Talvez por não dirigir-se a um público restrito interessado em ciência política, ou filosofia, ou teóricos da economia, ou história, mas a um amplo universo de leitores, o mais próximo possível da totalidade, dos quais espere a simpatia, quando não a adesão aos ideais que propõe.

          Não sendo uma análise, fica desobrigado de nos revelar sua dívida cultural e intelectual, deixando explícita, contudo, sua fé religiosa, fonte dos princípios morais do sistema político que propõe com ambição desmedida, ou melhor, com a medida da totalidade. Seria sua ideologia do mérito uma nova utopia? O sonho, o desejo é necessário para movimentar o mundo. Inairo Gomes publica o seu, ele tem essa ousadia. Mas o interessante, ou contraditório, mas também assustador, caso a quarta pirâmide se ponha de pé, é que, para assegurar a liberdade, é prevista uma rede minuciosa de controle. Nesse sentido, trata-se de um sistema totalitário, palavra que pretendo usar aqui sem sua terrível ressonância, mas como há uma tentativa de tudo prever, parece não ficar brecha para o particular, tal é a obsessão com que a justiça total é perseguida. O homem estará sempre dividido entre o particular e o universal.

          Há dias venho ruminando este posfácio ao mesmo tempo que tinha ao fundo os ecos da Venezuela, do Oriente Médio, da grande abstenção dos franceses em suas eleições. Como situar Semente de Democracia no texto da história? É um sonho, uma frase que começa. Podem ter um custo se começam a sair do papel. Sonhos mais simples – Canudos, Caldeirão – tiveram. Foram literalmente bombardeados.

          Desejo às idéias deste livro melhor sorte e que, apoiadas ou contestadas, pelo menos sejam debatidas.

 

Sílmia Sobreira

Sílmia Sobreira é Psicóloga, professora e tradutora

 

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