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chegara, à sua época, a Filosofia Escolástica,
empreende a ousada tarefa de reconstruir a Filosofia desde
os seus fundamentos. O seu ponto de partida é uma dúvida
metódica e universal: Resolvi, diz ele, fazer
de conta que todas as cousas que até então haviam
entrado no meu espírito, não eram mais verdadeiras
do que as ilusões dos meus sonhos. Destarte,
pôs em dúvida sistematicamente as afirmações
do senso comum, os argumentos de autoridade, o testemunho
dos sentidos, as informações da consciência,
as verdades deduzidas pelo raciocínio e os próprios
princípios imediatos, entretanto, enquanto
duvida, surpreende-se pensando e conclui: se duvido, penso;
se penso, existo cogito, ergo sum. Portanto,
a partir do seu Eu Pensante, Descartes constrói
sua admirável síntese filosófica, cujo
mérito não nos cabe aqui analisar. Abstraindo
o ilogismo do seu método, não há negar
que a obra do pensador francês desencadeou ampla e profunda
reforma no âmbito da Filosofia, como alhures ressaltamos.
Do seu legado intelectual que, extrapolando o seu século,
projeta-se nos séculos posteriores, originam-se as
duas mais importantes correntes do pensamento moderno, respectivamente:
a Escola Espiritualista e a Materialista; esta,
através dos filósofos iluministas do século
XVIII inspira a Revolução Francesa e a Declaração
Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de
26 de agosto de 1789, de tanta significação
para o destino da Humanidade.
Revolução com a abrangência e a profundidade
da que empreendeu Descartes no domínio do pensamento
especulativo, o Dr. Inairo Gomes crê-se predestinado
a realizar nos conceitos, nas estruturas e na dinâmica
da Política e da Economia, assumindo essa missão
como se lhe fora um mandato recebido do Alto, a própria
razão de ser da sua existência terrena, como
ele próprio no-lo confessa na introdução
da sua obra. Vale salientar que o seu livro não foi
escrito de afogadilho. Antes, pelo contrário, é
o resultado de longos anos de trabalho árduo, de estudos,
de pesquisas, de meditação, de questionamentos
e discussões, tudo medido, pesado e submetido à
joeira da crítica histórica, ao crivo das Ciências
Política e Econômica e aos ditames do bom senso
e da razão.
O ponto de partida, a motivação primordial
da reforma inairiana é uma postura crítica em
relação às estruturas políticas,
econômicas e sociais do país.
Corria o fatídico
ano de 68 e o jovem Inairo Gomes, então um anônimo
estudante em Recife, já se afligia com a condição
de pobreza e com a falta de perspectivas da grande maioria
do povo brasileiro. O país mergulhara, quatro anos
antes, nas trevas de uma ditadura militar que abolira por
ato institucional os partidos políticos existentes
e impusera o bipartidarismo com a criação de
um partido da situação, a ARENA (Aliança
Renovadora Nacional) e outro de oposição, o
MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Vivia-se
então uma fase de intensa efervescência política
e descontentamento popular, mormente nos grandes centros urbanos,
por força do cerceamento das liberdades constitucionais,
individuais e de expressão, esta decorrente da censura
imposta à imprensa. Além disso, a repressão
política aos segmentos da sociedade que se opunham
ao regime ditatorial contribuía ainda mais para aumentar
as tensões políticas e sociais. Críticas
e protestos eclodiam por toda parte oriundos principalmente
dos movimentos de esquerda e de outros setores progressistas
e engajados da sociedade civil. A tantas críticas
assisti, escreve o autor, que, sem me aperceber, embarquei
nessa onda, até o dia em que me surpreendi, qual papagaio
repetidor de ecos, criticando a tudo e a todos. Não
tardou que o jovem estudante se convencesse de que essa postura
niilista de crítica vazia e inconseqüente por
certo não conduziria a lugar nenhum. Percebeu que nada
adiantaria maldizer as trevas, sem antes acender uma luz na
escuridão. Compreendeu que em vez de verberar os graves
e angustiantes problemas que infelicitavam grande parte da
população brasileira, urgia buscar soluções
viáveis e realistas capazes de superá-los.
Todavia, para propor soluções impunha-se-lhe
conhecer a fundo os problemas na sua amplitude e implicações
e caracterizar as suas causas determinantes, como sói
acontecer na Medicina, em que o tratamento eficaz de uma enfermidade
baseia-se no diagnóstico preciso da sua etiofisiopatologia.
Diante disso cheguei à conclusão, confessa
ele, de que era preciso fazer alguma cousa no sentido de encontrar
uma saída. E o fez. Empreendeu a elaboração
da sua obra. Tinha início, assim, a missão para
a qual se julgava predestinado, de construir uma alternativa
política e econômica para o país.
Numa visão panorâmica,
a obra do Dr. Inairo Gomes abrange duas partes: a primeira
expositiva e crítica, a segunda, doutrinária
e propositiva. Na primeira, o autor analisa as deformidades
dos Modelos Econômico, Cultural, Político, Social,
Moral e Educacional vigentes. Ao tratar de Economia, expõe
numa linguagem simples e acessível as noções
elementares da Ciência Econômica, detendo-se mais
pormenorizadamente na abordagem do princípio básico
que preside e comanda os fenômenos econômicos,
ou seja, a famosa lei da procura e da oferta, sua manipulação
pelos agentes financeiros privados ou governamentais e seus
reflexos no dia a dia dos cidadãos. Ao referir-se à
Política, examina o papel dos partidos no contexto
do nosso Modelo Político, expondo-lhes as entranhas
e as mazelas e por fim lança-os todos na mesma vala
comum da inutilidade e da obsolescência. Discute o pacto
das elites e seus desdobramentos em relação
à violência institucionalizada com suas implicações
políticas, econômicas e sociais no que toca e
interessa ao povo brasileiro. Em prosseguimento, estabelece
os conceitos de Sistema e Modelo e desenvolve a partir dessas
premissas um estudo histórico-sociológico em
relação à evolução histórica
dos vários modelos e sistemas através dos tempos,
coroando-o com a interessante teoria dos trunfos humanos.
Na seqüência, aborda a teoria da origem do poder,
as causas da estratificação social e o surgimento
e consolidação do Absolutismo na História
da Humanidade, responsabilizando-o pelo aparecimento das tensões
e injustiças sociais. Expõe a origem e o apogeu
do Feudalismo na Europa e a sua decadência, o que ensejou
o aparecimento dos regimes absolutistas europeus, a partir
do início da Idade Moderna. Paralelamente, registra
o surgimento do Capitalismo, gestado desde os fins da Idade
Média e sua consolidação ao longo
dos últimos quinhentos anos. Por fim, conclui, anunciando
para breve a derrocada do Capitalismo, bem como dos modelos
políticos que graças a ele subsistem e sua substituição
num futuro já previsível por uma nova ordem
político-econômica baseada na justiça,
na fraternidade e nos direitos fundamentais da pessoa humana.
Os temas abordados na primeira parte do livro, indiscutivelmente
importantes, representam tão-somente o intróito
da obra do Dr. Inairo Gomes.
Com a introdução
ao estudo do Sistema do Mérito, o autor dá
início à parte mais importante do seu trabalho,
onde lança as bases de um Modelo Político etocrático
e de uma nova ordem econômica fundamentada na justiça
como já ressaltamos anteriormente.
A ordem econômica
que o autor se propõe construir é indiscutivelmente
inovadora. Começa por reformular os conceitos básicos
da Ciência Econômica, atribuindo-lhes novos conteúdos
semânticos. Destarte, termos como capital, trabalho,
propriedade, moeda, inflação e deflação,
entre outros, assumem acepções diversas daquelas
classicamente consagradas. Institui as figuras do crédito
público, pleno e universal e do domicílio
bancário único, nacionalmente válido
para cada cidadão brasileiro, a partir do seu nascimento,
instrumentos destinados a libertar o povo da dependência
política e econômica a que está sujeito.
Estabelece com base na
Psicologia as necessidades básicas do ser humano
hierarquizando-as de acordo com o seu grau de complexidade,
em fisiológicas, culturais, de segurança,
sociais, de auto-estima e de auto-realização
e indexa através da MATRIZ DE INAIRO, um
inovador instrumento de política econômica criado
para essa finalidade, toda ordem econômica à
satisfação plena dessas necessidades, o que,
de resto, representa, dentro da perspectiva inairiana, o objetivo
supremo, a própria razão de ser da Ideologia
do Mérito. Em síntese, para substituir o Sistema
Capitalista vigente, propõe uma nova ordem econômica
baseada fundamentalmente na liberdade e na dignidade do indivíduo
e na igualdade de oportunidades para todos, sem opressores
nem oprimidos, sob a égide da mais lídima
justiça distributiva.
É com um misto
de curiosidade e satisfação que iniciamos a
análise do novo Modelo Político proposto em
substituição ao vigente, mormente quando sabemos
que esse modelo foi concebido e construído com muito
trabalho, dedicação e admirável perseverança
durante quase toda uma vida e alimentado pelo ideal superior
de servir desinteressadamente aos seus semelhantes e ao bem
comum. Assim como dos escombros da Escolástica parte
Descartes para reestruturar a Filosofia, de igual modo, da
descrença em nossa pseudodemocracia lança-se
o Dr. Inairo Gomes ao ambicioso projeto de construir a esperança
de um futuro melhor para milhões de brasileiros que
apenas vegetam à margem da sociedade de consumo, sem
a possibilidade sequer de poderem satisfazer as suas necessidades
básicas.
O homem, escreveu
Aristóteles, é um animal político.
Na visão aristotélica, endossada pelo pensamento
e pela praxe cristã, todo ato humano consciente visa
a um fim e se transforma ipso facto num ato político,
quer tenha ou não consciência disto o indivíduo
que age. É inconteste que o lento e penoso processo
de evolução da humanidade ao longo do tempo,
desde as brumas da Pré-História aos nossos dias,
passou pelos caminhos da Política. É a Política,
por conseguinte, a força propulsora que impele a marcha
da História do homem na sua multimilenar e espinhosa
peregrinação terrena. Por essa razão,
o Papa Pio XI, de saudosa memória, numa de suas alocuções
apostólicas afirmou que a Política é,
depois da Religião, a mais nobre das atividades humanas.
A Política se concretiza e realiza através de
um Modelo Político, mediante o qual atua com reflexos
positivos ou negativos sobre os diversos estamentos do organismo
social.
Partindo do pressuposto de que a crise brasileira é
fundamentalmente de natureza política e moral,
conclui o autor que ela está visceralmente vinculada
ao nosso Modelo Político, o qual responderia também
não só pelo nosso secular atraso econômico
e social, mas sobretudo pela corrupção epidêmica
que corrói o organismo político-administrativo
do Estado em todos os níveis, bem como o tecido social.
Caracterizado o nosso
Modelo Político como uma democracia liberal, partidária
e representativa, emergem desse conceito duas premissas
fundamentais a serem consideradas:
1ª) na condição
de democracia partidária, o nosso Modelo Político
consagra o Partido Político como a única via
possível de acesso ao Poder Político
2ª) como democracia
representativa estabelece que o povo seja representado
nas instâncias do Poder apenas por delegados eleitos
através de Partidos Políticos. Dessas
premissas emanam duas importantes conseqüências.
Da primeira que estabelece que apenas um Partido Político
pode levar ao Poder, resulta que o Poder Político se
transforma num condomínio fechado, num oligopólio
a que apenas uns poucos têm acesso. Ao concentrar o
Poder Político nas mãos de uma minoria, a democracia
liberal-partidária, ipso facto exclui o povo
do processo decisório do Estado. Sob esse aspecto,
a nossa democracia não seria mais que uma
ficção, uma burla, uma artificialidade.
Do exposto resulta que o nosso Modelo Político
é, em essência, um regime oligárquico
porque apenas uma minoria detém, de fato, o monopólio
do Poder Político. Ora, em qualquer oligarquia a tendência
natural é que o grupo dominante exerça o Poder
em proveito próprio, parasitariamente, empobrecendo
material e espiritualmente a maioria da Sociedade.
Da segunda premissa que
estipula que toda e qualquer iniciativa de caráter
legislativo ou administrativo oriunda da sociedade civil deva
ser encaminhada às respectivas esferas do Poder Legislativo
ou Executivo através dos representantes eleitos, resulta
na prática, a anulação pura e simples
da soberania popular, fonte de todo Poder na Democracia,
reduzindo-a ao mero ato formal de depositar um voto na urna
de quatro em quatro anos.
A esse modelo político
oligárquico instaurado no país desde o Império
que legitima e patrocina a exclusão social, a iníqua
distribuição da renda nacional, a violência
institucionalizada, a corrupção desbragada que
nos envergonha e que favorece as injustiças de toda
ordem que oprimem grande parte do povo brasileiro, seqüestrando-lhe
a dignidade, a cidadania e o direito a uma vida melhor, contrapõe
o Dr. Inairo Gomes um regime ético, transparente, escoimado
de toda corrupção e centrado primordialmente
no mérito de servir o próximo e promover o bem
comum, de acordo com as palavras de Cristo: Sabeis
que os chefes das nações as tratam como senhores
e que os grandes as dominam. Entre vós não deve
ser assim. Pelo contrário, aquele dentre vós
que quiser ser grande, há de ser o servo de todos.
E quem entre vós quiser ser o primeiro, há de
se colocar a serviço de todos, a exemplo do Filho do
Homem que não veio para ser servido, mas para servir
e oferecer a sua vida para resgate de muitos. (Mt 20,
25-28) Eis a lição de Cristo: o poder só
é justo e legítimo quando posto
a serviço do próximo e do bem comum.
Oxalá o Sistema do Mérito se transforme na portentosa
alavanca que possa impulsionar o Brasil para um futuro grandioso
de paz, de ordem e progresso condizente com a sua vocação
continental e a sua predestinação histórica.
Dá-me uma alavanca e um ponto de apoio, dizia
Arquimedes, e eu levantarei o mundo. Dai-me a oportunidade
de por em prática as minhas idéias, afirma o
Dr. Inairo Gomes, e eu poderei mudar não só
a fisionomia do país, mas quiçá a face
da terra.
Concluindo, cumpre-nos
reconhecer que se outros méritos não tivera
o livro do Dr. Inairo Gomes, ao menos um, que excede os demais,
ninguém lhe pode negar: o mérito de tentar construir
um Modelo Político baseado no respeito e amor ao próximo
e no propósito de servi-lo consoante o preceito divino:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Antônio Telles
Antônio Telles é
médico e autor do livro PADRE CÍCERO NAS
PEGADAS DO MESTRE
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