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          A magnitude e a ousadia do empreendimento que o Dr. Inairo Gomes nos propõe no seu livro SEMENTE DE DEMOCRACIA – A IDEOLOGIA DO MÉRITO fazem-nos evocar a grande figura do filósofo francês René Descartes e a influência decisiva da sua obra na gênese e na evolução da Filosofia Moderna. Embora distanciados no tempo, já que quatro séculos os separam, ambos têm um traço em comum: assumem, cada um dentro do seu contexto histórico, uma postura nitidamente reformista.

          Registra a História da Filosofia que Descartes, considerado o pai do Pensamento Moderno, profundamente desapontado com a decadência  a que

 

chegara, à sua época, a Filosofia Escolástica, empreende a ousada tarefa de reconstruir a Filosofia desde os seus fundamentos. O seu ponto de partida é uma dúvida metódica e universal: “Resolvi, diz ele, fazer de conta que todas as cousas que até então haviam entrado no meu espírito, não eram mais verdadeiras do que as ilusões dos meus sonhos.” Destarte, pôs em dúvida sistematicamente “as afirmações do senso comum, os argumentos de autoridade, o testemunho dos sentidos, as informações da consciência, as verdades deduzidas pelo raciocínio e os próprios princípios imediatos”, entretanto, enquanto duvida, surpreende-se pensando e conclui: se duvido, penso; se penso, existo – cogito, ergo sum. Portanto, a partir do seu Eu Pensante, Descartes constrói sua admirável síntese filosófica, cujo mérito não nos cabe aqui analisar. Abstraindo o ilogismo do seu método, não há negar que a obra do pensador francês desencadeou ampla e profunda reforma no âmbito da Filosofia, como alhures ressaltamos. Do seu legado intelectual que, extrapolando o seu século, projeta-se nos séculos posteriores, originam-se as duas mais importantes correntes do pensamento moderno, respectivamente: a Escola Espiritualista e a Materialista; esta, através dos filósofos iluministas do século XVIII inspira a Revolução Francesa e a Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão de 26 de agosto de 1789, de tanta significação para o destino da Humanidade.

          Revolução com a abrangência e a profundidade da que empreendeu Descartes no domínio do pensamento especulativo, o Dr. Inairo Gomes crê-se predestinado a realizar nos conceitos, nas estruturas e na dinâmica da Política e da Economia, assumindo essa missão como se lhe fora um mandato recebido do Alto, a própria razão de ser da sua existência terrena, como ele próprio no-lo confessa na introdução da sua obra. Vale salientar que o seu livro não foi escrito de afogadilho. Antes, pelo contrário, é o resultado de longos anos de trabalho árduo, de estudos, de pesquisas, de meditação, de questionamentos e discussões, tudo medido, pesado e submetido à joeira da crítica histórica, ao crivo das Ciências Política e Econômica e aos ditames do bom senso e da razão.

          O ponto de partida, a motivação primordial da reforma inairiana é uma postura crítica em relação às estruturas políticas, econômicas e sociais do país.

          Corria o fatídico ano de 68 e o jovem Inairo Gomes, então um anônimo estudante em Recife, já se afligia com a condição de pobreza e com a falta de perspectivas da grande maioria do povo brasileiro. O país mergulhara, quatro anos antes, nas trevas de uma ditadura militar que abolira por ato institucional os partidos políticos existentes e impusera o bipartidarismo com a criação de um partido da situação, a ARENA (Aliança Renovadora Nacional) e outro de oposição, o MDB (Movimento Democrático Brasileiro). Vivia-se então uma fase de intensa efervescência política e descontentamento popular, mormente nos grandes centros urbanos, por força do cerceamento das liberdades constitucionais, individuais e de expressão, esta decorrente da censura imposta à imprensa. Além disso, a repressão política aos segmentos da sociedade que se opunham ao regime ditatorial contribuía ainda mais para aumentar as tensões políticas e sociais. Críticas e protestos eclodiam por toda parte oriundos principalmente dos movimentos de esquerda e de outros setores progressistas e engajados da sociedade civil. “A tantas críticas assisti, escreve o autor, que, sem me aperceber, embarquei nessa onda, até o dia em que me surpreendi, qual papagaio repetidor de ecos, criticando a tudo e a todos.” Não tardou que o jovem estudante se convencesse de que essa postura niilista de crítica vazia e inconseqüente por certo não conduziria a lugar nenhum. Percebeu que nada adiantaria maldizer as trevas, sem antes acender uma luz na escuridão. Compreendeu que em vez de verberar os graves e angustiantes problemas que infelicitavam grande parte da população brasileira, urgia buscar soluções viáveis e realistas capazes de superá-los.

          Todavia, para propor soluções impunha-se-lhe conhecer a fundo os problemas na sua amplitude e implicações e caracterizar as suas causas determinantes, como sói acontecer na Medicina, em que o tratamento eficaz de uma enfermidade baseia-se no diagnóstico preciso da sua etiofisiopatologia. “Diante disso cheguei à conclusão, confessa ele, de que era preciso fazer alguma cousa no sentido de encontrar uma saída”. E o fez. Empreendeu a elaboração da sua obra. Tinha início, assim, a missão para a qual se julgava predestinado, de construir uma alternativa política e econômica para o país.

          Numa visão panorâmica, a obra do Dr. Inairo Gomes abrange duas partes: a primeira expositiva e crítica, a segunda, doutrinária e propositiva. Na primeira, o autor analisa as deformidades dos Modelos Econômico, Cultural, Político, Social, Moral e Educacional vigentes. Ao tratar de Economia, expõe numa linguagem simples e acessível as noções elementares da Ciência Econômica, detendo-se mais pormenorizadamente na abordagem do princípio básico que preside e comanda os fenômenos econômicos, ou seja, a famosa lei da procura e da oferta, sua manipulação pelos agentes financeiros privados ou governamentais e seus reflexos no dia a dia dos cidadãos. Ao referir-se à Política, examina o papel dos partidos no contexto do nosso Modelo Político, expondo-lhes as entranhas e as mazelas e por fim lança-os todos na mesma vala comum da inutilidade e da obsolescência. Discute o pacto das elites e seus desdobramentos em relação à violência institucionalizada com suas implicações políticas, econômicas e sociais no que toca e interessa ao povo brasileiro. Em prosseguimento, estabelece os conceitos de Sistema e Modelo e desenvolve a partir dessas premissas um estudo histórico-sociológico em relação à evolução histórica dos vários modelos e sistemas através dos tempos, coroando-o com a interessante teoria dos trunfos humanos. Na seqüência, aborda a teoria da origem do poder, as causas da estratificação social e o surgimento e consolidação do Absolutismo na História da Humanidade, responsabilizando-o pelo aparecimento das tensões e injustiças sociais. Expõe a origem e o apogeu do Feudalismo na Europa e a sua decadência, o que ensejou o aparecimento dos regimes absolutistas europeus, a partir do início da Idade Moderna. Paralelamente, registra o surgimento do Capitalismo, gestado desde os fins da Idade Média e sua consolidação ao longo dos últimos quinhentos anos. Por fim, conclui, anunciando para breve a derrocada do Capitalismo, bem como dos modelos políticos que graças a ele subsistem e sua substituição num futuro já previsível por uma nova ordem político-econômica baseada na justiça, na fraternidade e nos direitos fundamentais da pessoa humana.

          Os temas abordados na primeira parte do livro, indiscutivelmente importantes, representam tão-somente o intróito da obra do Dr. Inairo Gomes.

          Com a introdução ao estudo do Sistema do Mérito, o autor dá início à parte mais importante do seu trabalho, onde lança as bases de um Modelo Político etocrático e de uma nova ordem econômica fundamentada na justiça como já ressaltamos anteriormente.

          A ordem econômica que o autor se propõe construir é indiscutivelmente inovadora. Começa por reformular os conceitos básicos da Ciência Econômica, atribuindo-lhes novos conteúdos semânticos. Destarte, termos como capital, trabalho, propriedade, moeda, inflação e deflação, entre outros, assumem acepções diversas daquelas classicamente consagradas. Institui as figuras do crédito público, pleno e universal e do domicílio bancário único, nacionalmente válido para cada cidadão brasileiro, a partir do seu nascimento, instrumentos destinados a libertar o povo da dependência política e econômica a que está sujeito.

          Estabelece com base na Psicologia as necessidades básicas do ser humano hierarquizando-as de acordo com o seu grau de complexidade, em fisiológicas, culturais, de segurança, sociais, de auto-estima e de auto-realização e indexa através da MATRIZ DE INAIRO, um inovador instrumento de política econômica criado para essa finalidade, toda ordem econômica à satisfação plena dessas necessidades, o que, de resto, representa, dentro da perspectiva inairiana, o objetivo supremo, a própria razão de ser da Ideologia do Mérito. Em síntese, para substituir o Sistema Capitalista vigente, propõe uma nova ordem econômica baseada fundamentalmente na liberdade e na dignidade do indivíduo e na igualdade de oportunidades para todos, sem opressores nem oprimidos, sob a égide da mais lídima justiça distributiva.

          É com um misto de curiosidade e satisfação que iniciamos a análise do novo Modelo Político proposto em substituição ao vigente, mormente quando sabemos que esse modelo foi concebido e construído com muito trabalho, dedicação e admirável perseverança durante quase toda uma vida e alimentado pelo ideal superior de servir desinteressadamente aos seus semelhantes e ao bem comum. Assim como dos escombros da Escolástica parte Descartes para reestruturar a Filosofia, de igual modo, da descrença em nossa pseudodemocracia lança-se o Dr. Inairo Gomes ao ambicioso projeto de construir a esperança de um futuro melhor para milhões de brasileiros que apenas vegetam à margem da sociedade de consumo, sem a possibilidade sequer de poderem satisfazer as suas necessidades básicas.

          “O homem, escreveu Aristóteles, é um animal político”. Na visão aristotélica, endossada pelo pensamento e pela praxe cristã, todo ato humano consciente visa a um fim e se transforma ipso facto num ato político, quer tenha ou não consciência disto o indivíduo que age. É inconteste que o lento e penoso processo de evolução da humanidade ao longo do tempo, desde as brumas da Pré-História aos nossos dias, passou pelos caminhos da Política. É a Política, por conseguinte, a força propulsora que impele a marcha da História do homem na sua multimilenar e espinhosa peregrinação terrena. Por essa razão, o Papa Pio XI, de saudosa memória, numa de suas alocuções apostólicas afirmou que a Política é, depois da Religião, a mais nobre das atividades humanas.

          A Política se concretiza e realiza através de um Modelo Político, mediante o qual atua com reflexos positivos ou negativos sobre os diversos estamentos do organismo social.
Partindo do pressuposto de que a crise brasileira é fundamentalmente de natureza política e moral, conclui o autor que ela está visceralmente vinculada ao nosso Modelo Político, o qual responderia também não só pelo nosso secular atraso econômico e social, mas sobretudo pela corrupção epidêmica que corrói o organismo político-administrativo do Estado em todos os níveis, bem como o tecido social.

          Caracterizado o nosso Modelo Político como uma democracia liberal, partidária e representativa, emergem desse conceito duas premissas fundamentais a serem consideradas:

          1ª) na condição de democracia partidária, o nosso Modelo Político consagra o Partido Político como a única via possível de acesso ao Poder Político

          2ª) como democracia representativa estabelece que o povo seja representado nas instâncias do Poder apenas por delegados eleitos através de Partidos Políticos. Dessas premissas emanam duas importantes conseqüências. Da primeira que estabelece que apenas um Partido Político pode levar ao Poder, resulta que o Poder Político se transforma num condomínio fechado, num oligopólio a que apenas uns poucos têm acesso. Ao concentrar o Poder Político nas mãos de uma minoria, a democracia liberal-partidária, ipso facto exclui o povo do processo decisório do Estado. Sob esse aspecto, a nossa democracia não seria mais que “uma ficção, uma burla, uma artificialidade”. Do exposto resulta que o nosso Modelo Político é, em essência, um regime oligárquico porque apenas uma minoria detém, de fato, o monopólio do Poder Político. Ora, em qualquer oligarquia a tendência natural é que o grupo dominante exerça o Poder em proveito próprio, parasitariamente, empobrecendo material e espiritualmente a maioria da Sociedade.

          Da segunda premissa que estipula que toda e qualquer iniciativa de caráter legislativo ou administrativo oriunda da sociedade civil deva ser encaminhada às respectivas esferas do Poder Legislativo ou Executivo através dos representantes eleitos, resulta na prática, a anulação pura e simples da soberania popular, fonte de todo Poder na Democracia, reduzindo-a ao mero ato formal de depositar um voto na urna de quatro em quatro anos.

          A esse modelo político oligárquico instaurado no país desde o Império que legitima e patrocina a exclusão social, a iníqua distribuição da renda nacional, a violência institucionalizada, a corrupção desbragada que nos envergonha e que favorece as injustiças de toda ordem que oprimem grande parte do povo brasileiro, seqüestrando-lhe a dignidade, a cidadania e o direito a uma vida melhor, contrapõe o Dr. Inairo Gomes um regime ético, transparente, escoimado de toda corrupção e centrado primordialmente no mérito de servir o próximo e promover o bem comum, de acordo com as palavras de Cristo: “Sabeis que os chefes das nações as tratam como senhores e que os grandes as dominam. Entre vós não deve ser assim. Pelo contrário, aquele dentre vós que quiser ser grande, há de ser o servo de todos. E quem entre vós quiser ser o primeiro, há de se colocar a serviço de todos, a exemplo do Filho do Homem que não veio para ser servido, mas para servir e oferecer a sua vida para resgate de muitos”. (Mt 20, 25-28) Eis a lição de Cristo: o poder só é justo e legítimo quando posto a serviço do próximo e do bem comum.

          Oxalá o Sistema do Mérito se transforme na portentosa alavanca que possa impulsionar o Brasil para um futuro grandioso de paz, de ordem e progresso condizente com a sua vocação continental e a sua predestinação histórica.

          “Dá-me uma alavanca e um ponto de apoio, dizia Arquimedes, e eu levantarei o mundo”. Dai-me a oportunidade de por em prática as minhas idéias, afirma o Dr. Inairo Gomes, e eu poderei mudar não só a fisionomia do país, mas quiçá a face da terra.

          Concluindo, cumpre-nos reconhecer que se outros méritos não tivera o livro do Dr. Inairo Gomes, ao menos um, que excede os demais, ninguém lhe pode negar: o mérito de tentar construir um Modelo Político baseado no respeito e amor ao próximo e no propósito de servi-lo consoante o preceito divino: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”.

 

Antônio Telles

Antônio Telles é médico e autor do livro “PADRE CÍCERO NAS PEGADAS DO MESTRE”

 

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